terça-feira, 9 de novembro de 2010

JVP


FC Porto-Benfica

1 - Opções de Jesus resultaram duplamente mal

A vitória do FC Porto começa por explicar-se através das opções de Jorge Jesus para o onze inicial. A sua intenção ao colocar David Luiz no lado esquerdo da defesa e Salvio no meio-campo era tornar a equipa mais compacta em termos defensivos. Em teoria, David Luiz iria fortalecer o lado esquerdo e, juntamente com Coentrão, travar Hulk; Salvio ajudaria a ganhar o meio-campo que passaria, na prática, a ter quatro homens. Percebo o pensamento do treinador do Benfica, mas a equipa não respondeu ao que ele pretendia e acabou por ver-se duplamente prejudicada: por um lado, porque David Luiz não tem rotinas de lateral-esquerdo, perdendo-se na posição, e com os desequilíbrios do FC Porto a surgirem por esse lado; por outro lado, a equipa não criou perigo, pois faltou-lhe a dinâmica que normalmente surge por via do entendimento entre Aimar e Saviola. Só que este último não estava em campo!

2 - O mérito do FC Porto e a potência de Hulk

Há, naturalmente, muito mérito do FC Porto - que inicialmente fez um jogo muito inteligente, pensado, gradualmente intensificando a pressão sobre o Benfica quando não tinha a posse de bola. O FC Porto percebeu os problemas que o Benfica ainda não conseguiu resolver do lado esquerdo, em que das duas posições só uma oferece garantias, que é aquela onde jogar Coentrão. A fragilidade nesse flanco é visível pelas constantes alterações de jogadores - ora entra César Peixoto, ora Gaitán, que dá boa dinâmica atacante mas não defende. Além disso, a equipa portista tem, do meio-campo para diante, jogadores que circulam bem a bola, que criam uma boa dinâmica e no ataque tem elementos que desequilibram. E, neste momento, é muito difícil segurar Hulk, em especial quando lhe pertence a iniciativa da jogada. A partir do momento em que se vira de frente para o adversário, fruto do seu poder de arranque, ganha-lhe logo dois metros. E a isto junta-se velocidade e potência de remate.

3 - O Incrível definiu o encontro

A história do encontro não é difícil de contar. Nos primeiros dez minutos, as equipas estudavam-se, procuravam manter a organização defensiva mas também responder aos ataques uma da outra. Até que surge o momento que marca o jogo: Hulk desequilibra e define o que se passaria daí para a frente. Embora David Luiz pudesse fazer um pouco mais, é muito difícil travar este Hulk. Seja David Luiz ou qualquer outro defesa!

4 - Um grande golo de Falcao

Falcao fez um grande golo e de execução muito difícil. Uma coisa é a bola vir a rolar rente à relva, em que basta um pequeno toque para a desviar. Aqui tratou-se de um lance muito mais difícil, pois a bola vem pelo ar e o avançado colombiano é obrigado a imprimir-lhe mais força para ela entrar. A beleza do golo começou, no entanto, na forma como ganhou o espaço e depois pela rapidez com que pensou e executou.

5 - Eficácia portista e incapacidade encarnada

Sublinho a tremenda eficácia demonstrada pelo FC Porto. Fez três golos nos primeiros três ataques perigosos que efectuou e conseguiu sempre alargar e aprofundar melhor o seu jogo. O Benfica não teve essa capacidade nem conseguiu arranjar argumentos para responder. Aliás a sua grande oportunidade foi apenas na segunda parte, quando após um canto Luisão amorteceu para um remate de David Luiz, a que Helton correspondeu bem. O Benfica não conseguiu reagir aos golos sofridos e se as coisas já estavam complicadas ainda mais ficaram com a expulsão de Luisão. É uma daquelas coisas que não deveria acontecer mas que reflectem a situação do Benfica, com os jogadores a sentirem que a equipa não está a reagir - e logo num clássico - e a verem aumentar a diferença pontual para o rival.

6 - FC Porto superior

Assim como na época passada se reconhecia que o Benfica estava a ser superior, agora deve fazer-se o mesmo em relação ao FC Porto. E não é só Hulk que merece ser destacado, ainda que o seu momento actual de forma possa roubar protagonismo a Varela, Falcao, Belluschi ou Moutinho. A entrada deste último no meio-campo foi, de resto, fundamental, pois ao ser muito disciplinado tacticamente permitiu que Belluschi se libertasse e passasse a fazer desequilíbrios à semelhança de Lucho González e a aparecer nas costas dos avançados. Os jogadores que entram estão confiantes porque a equipa está bem. Exemplos disso são Guarín (nem se notou a ausência de Fernando) e Rúben Micael, que substituiu Belluschi. Este estado de espírito permite motivar tanto os titulares como aqueles que jogam menos. E tudo isto sem a pressão pontual, pois o adversário mais próximo está já a dez pontos

7 - Bem encaminhado para o título

Embora se pense nisso, não se deve dizer já que a época está resolvida. Mas é inegável que o FC Porto está muito bem encaminhado rumo ao título, apesar de ainda só terem sido disputadas dez jornadas, isto é, o primeiro terço do campeonato. Digo isto não só pela diferença pontual mas sobretudo pela forma como a equipa está a jogar. Isto é semelhante ao que sucedeu com o Benfica na época passada. A grande diferença é não ter um rival à altura como o Benfica teve no Braga na última temporada, o que permite ao FC Porto respirar ainda melhor.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Porto 5 - 0 Benfica - 10ª Jornada 2010/11

Para ser sincero, pouquíssima vontade tenho de escrever esta crónica, pois nem sei por onde começar. O jogo de hoje dava para se fazer um manual de como um treinador não deve preparar um jogo, de como uma estrutura directiva não deve planear uma época e de como não se devem desculpar todos esses erros com a arbitragem. Sofremos hoje uma das derrotas mais pesadas e humilhantes da nossa história, frente a uma equipa que a mereceu por completo e que até levantou o pé do acelerador na segunda parte. Se assim não fosse, até podiam ter sido mais. Uma vergonha para um campeão nacional.


Por toda a blogosfera se foi dizendo no início da época que a planificação da temporada não tinha sido bem feita, que as saídas de Di María e Ramires não tinham sido bem suplantadas, que as contratações foram inúteis para um campeão que pretendia revalidar o título e fazer excelente figura na principal competição europeia de clubes. Já todos sabemos disso (embora os órgãos oficiosos do Benfica teimem em tentar tapar o sol com a peneira e falar apenas mal das arbitragens, insultando e chamando de não-benfiquistas todos aqueles que se insurgem contra os erros cometidos pela nossa direcção). Os culpados deste descalabro que aconteceu hoje e que tem sido, no fundo, toda esta temporada são 2: o presidente Luís Filipe Vieira e o treinador Jorge Jesus. O presidente, porque não tem a visão estratégica necessária para perceber quais os jogadores que tem mesmo de trazer para o clube (e porque não deixa quem a tem se intrometer nas suas decisões); o treinador, porque não soube impor a sua vontade quando sabia perfeitamente que não tinha ninguém capaz de substituir aqueles 2 jogadores. Em relação ao jogo em si, aí todas as culpas vão única e exclusivamente para Jorge Jesus. Ainda hoje ele continua convencido de que não foi por pôr o Sidnei a titular e o David Luiz à esquerda que perdeu em Liverpool, quando todos sabemos que foi, e o espelho disso é que hoje voltou a fazê-lo. Com os desastrosos resultados que vimos em ambas as ocasiões. Eu já sabia que ele ia fazer esta asneira desde ontem, na verdade. Sobre o Sidnei, só posso dizer que na 4ª-feira fui ver o jogo para a Liga Centenária com o Real Massamá e ele foi apenas o pior em campo (e o Real tinha apenas 2 seniores a jogar): completamente displicente, gordo, sem ritmo, sem velocidade e, o pior de tudo, sem vontade de fazer nada. Sem vontade de jogar. O Roderick nesse jogo foi totalmente superior, foi o patrão da defesa; o Fábio Faria esteve bem; até o Zoro foi seguríssimo naquele dia. Mas o Sidnei foi horrível. A minha pergunta é: será que o Jorge Jesus é incapaz de ver aquilo que toda a gente consegue ver? E a minha resposta é: o problema do Jorge Jesus este ano chama-se presunção, vaidade, até arrogância. Ganhou um campeonato e convenceu-se que era o maior do mundo, tal como o presidente e toda a estrutura. O José Veiga disse isto há 5 anos: no Benfica não se sabe ganhar. Ganha-se uma vez e fica-se de peito feito a achar-se que somos os maiores do mundo. E as coisas não são assim. No Porto, por exemplo, nada disto acontece. O presidente não o permite. Ele quer sempre ganhar, não fica um ano inteiro a pavonear-se pelo que ganhou no ano anterior nem pelo estádio que projectou há 7 anos. O que faz fora do clube é criminoso e deveria ser preso por isso, mas dentro do clube é um presidente a sério. Algo que no Benfica não aparece há muitos, muitos anos. Infelizmente.


Em relação ao jogo em si, não sei se vale a pena dizer muito mais. O erro já repetido tantas vezes voltou a mostrar ser isso mesmo, um erro, logo no início, com Hulk a papar por completo o novo lateral-esquerdo do Benfica e a cruzar para Varela finalizar tranquilamente. 1-0 para o Porto.
(Um aparte para abordar uma questão que me intriga há anos: porque raio é que todos os treinadores têm a tendência incrivelmente absurda de mudarem a equipa quando chega um jogo com uma equipa mais forte? O único treinador que conheço que não o faz é o Mourinho - e talvez o Alex Ferguson. Acho que já disse tudo).


Sem surpresa, o 2-0 chegou num golo magnífico de Falcao. De que lado aconteceu a jogada de Hulk? Adivinharam.
O 3-0, apenas 4 minutos depois, pelo mesmo jogador (o melhor avançado do campeonato já desde o ano passado, como sempre disse aqui). A jogada, desenhada por Belluschi, toda ela do lado... nem vale a pena acabar a frase; já chegaram lá, certo?


Ao intervalo, UAU! Um rasgo de lucidez passou pela mente de Jesus, e o Sidnei ficou nos balneários, dando lugar a Gaitán. Não se ganhou muito com a troca, mas pelo menos o David Luiz e o Fábio Coentrão voltaram a ocupar os seus lugares habituais. E a verdade é que, apesar dos 3-0, o Benfica até estava a conseguir aguentar o Porto, embora continuasse inexistente no ataque (deixar o Kardec abandonado à sua sorte foi outra decisão inenarrável), até que o nosso "venerado" (por muitos benfiquistas) capitão se lembrou de ter uma atitude ridícula, num lance que até já tinha ganho. Foi muito bem expulso (falhará, por isso, a recepção à Naval, tal como Carlos Martins e Maxi Pereira) e precipitou o resto da goleada que viria a seguir. Sempre pelos pés de Hulk, realmente um jogador ao qual já vão faltando adjectivos para o descrever. Apesar de não ser propriamente um jogador inteligente na definição das jogadas, acaba por compensar isso com a velocidade e força impressionantes. Será, sem sombra de dúvidas, o jogador da época 2010/11. E possivelmente também o melhor marcador - já leva 10 golos em 10 jogos, com os 2 de hoje.

No Benfica não há um jogador de quem se possa falar bem. Todos, sem excepção, estiveram fraquíssimos. A derrota é justíssima, e agora, na véspera do jogo em casa com a Naval, vamos fazer uma digressão a Angola (mais uma ideia brilhante do nosso magnífico e grandioso presidente), de modo a termos a equipa toda rota para esse jogo. Enfim... Não há muito mais que se possa dizer. Com o campeonato entregue (hoje foi a total passagem de testemunho), resta-nos tentar ganhar as 2 taças para que possamos conquistar algo este ano e, já agora, marcar presença na Supertaça da próxima época. Na Liga dos Campeões, ficar-nos-emos pelos oitavos-de-final (chegar aos quartos já é pedir muito a esta equipa) e já será bom. Agora vou-me calar com os "Eu acredito" porque já não acredito em nada - a não ser, lá está, a conquista de uma ou 2 das taças.

O resumo do humilhante jogo aqui:



PS: Aparte o resultado do jogo, é de lamentar mais uma vez os incidentes verificados, perpetrados mais uma vez apenas por adeptos do Porto. O autocarro do Benfica voltou a ser atingido por pedras e bolas de golfe, as mesmas que depois voaram para dentro do campo com o jogo a decorrer, acertando no Roberto. Não sei o que é que a Liga prevê para estes casos (como é no estádio do Dragão, se calhar não acontecerá nada), mas acho que num país normal era caso para bem mais que uma multa. Mas isso era num país normal.

domingo, 7 de novembro de 2010

Era tão bom se fosse sempre assim...

"O FC Porto – Benfica da época de 1953/54 teve a precedê-lo um ambiente bem menos medieval. No seu último número de Dezembro de 1953, O Porto, jornal oficial do clube nortenho, exortava os seus adeptos a receber condignamente os rivais que haveriam de chegar de Lisboa:
«Portistas, vem aí o Benfica. É claro que vamos receber como ele merece: à moda do Porto. Os encarnados do Sul vêm de longada até à Cidade Invicta encher de alegria os olhos dos desportistas tripeiros. Que vença, Deus o permita, o nosso glorioso clube. É legítimo. Que os bravos benfiquistas nos perdoem a tripeira fraqueza… Nada de hipocrisias porque os dois baluartes do futebol nacional já habituaram de tal maneira os seus adeptos à exibição plena das mais nobres virtudes da ética desportiva.»
E FC Porto venceu o Benfica por 5-3 sem ter havido registo de qualquer incidente, tal como o jornal O Benfica, órgão oficial do clube, relataria na sua edição de 14 de Janeiro de 1954:
«Ganhou o Porto! Foi naquela tarde o melhor. Mas também soube pôr na vitória o timbre de firmeza e educação que só os atletas de elite possuem. Perdeu o Benfica! Mas nem por isso saiu diminuído da contenda. Deixou no belo Estádio o perfume da sua categoria de grande equipa, grande na maneira de jogar, enorme na forma como soube aceitar a derrota.»
É impressionante o que o país tem evoluído nestas últimas longas décadas…"

Este é um excerto da crónica desta semana de Leonor Pinhão, que pode ser lida no Apanhados Quânticos, e a única coisa que me apraz dizer é exactamente o título deste post. Era tão bom que fosse sempre assim... Mas não é, infelizmente. Faço votos para que pelo menos hoje não aconteçam quaisquer incidentes extra-futebol e, já agora, dentro do campo. A ver se temos um clássico a sério desta vez.

sábado, 6 de novembro de 2010

O Benfica no campeonato - Porto 0 - 2 Benfica 2005/06

Porque considero o clássico deste Domingo absolutamente decisivo para as contas deste campeonato (não vamos estar com rodeios: o Porto será campeão se vencer este jogo), inauguro hoje a rubrica "O Benfica no campeonato", onde ocasionalmente (em princípio sempre na véspera de jogos decisivos) serão lembradas prestações passadas das águias frente ao adversário que virá a seguir. Neste caso, e porque esse adversário será o Porto, no Dragão, achei por bem relembrar a última vitória do Benfica neste reduto.
Foi em 2005/06, época em que, com Ronald Koeman no comando da equipa, conseguimos bater o Porto nos dois jogos. Curiosamente não serviu de grande coisa, pois acabámos em 3º lugar, a 12 pontos dos dragões. No entanto, à 7ª jornada ninguém poderia adivinhar esse desfecho, e a verdade é que o Benfica conseguiu um brilharete nesse jogo. Depois de um começo de época horrível (tal como este ano), em que chegámos à 4ª jornada com apenas 1 ponto, os resultados começaram a melhorar, mas a distância pontual para o Porto à entrada para o clássico ainda era de 4 pontos e ninguém dava o Benfica como favorito. O que é certo é que a exibição da nossa equipa foi espectacular, particularmente na segunda parte, com especial destaque para o agora capitão Nuno Gomes - na altura era Simão -, que bisou, carimbando uma vitória que fugia há muitos anos. Do actual plantel, só Luisão e Nuno Gomes actuaram nesse jogo; Moreira estava lesionado e Mantorras foi suplente não utilizado.
É uma exibição (e principalmente um desfecho) assim que espero que aconteça no Domingo. Tenho a plena convicção de que uma vitória do Benfica pode relançar o campeonato, mas uma do Porto selará o destino desta Liga por completo. O empate... deixa tudo na mesma. Portanto, vamos lá repetir o desfecho de há 5 anos. Já não será Nuno Gomes o herói do encontro (só Luisão repetirá a presença no onze), mas que seja outro o jogador a deixar o seu nome na história encarnada por ter garantido um triunfo no Dragão. Eu acredito!

Os golos desse jogo aqui:



sexta-feira, 5 de novembro de 2010

JVP


Benfica-Lyon

1 - Da vitória fantástica à vitória apenas importante

O Benfica conseguiu uma vitória importantíssima na Liga dos Campeões, mas acabou por manchar, num quarto de hora, 75 minutos de futebol soberbo. Só que aquele que poderia ter sido um triunfo moralizador até para a visita ao Dragão, acabou por se transformar apenas em três pontos decisivos na Champions, tendo ficado de positivo o facto de o Benfica ter deixado de depender de terceiros. Agora não tem nada de que se queixar. Ganhar 4-3 depois de ter chegado a 4-0, foi um castigo pesado, mas também uma lição para o futuro, mesmo que se admita que os níveis de concentração possam baixar depois de se atingir uma vantagem tão confortável.

2 - Benfica e Lyon trocaram de táctica após o 1-0

O Benfica fez uma primeira parte fantástica, por vários motivos: pela coragem demonstrada ao assumir o jogo; pela inteligência evidenciada ao mudar de estratégia depois do primeiro golo; pela maturidade demonstrada ao manter a organização defensiva, sem dar espaços e aproveitando os oferecidos pelo Lyon.
A equipa francesa apresentou-se na Luz tranquila, porque tinha ganho os três jogos anteriores e podia apostar em defender bem e jogar no erro do Benfica, um pouco à semelhança do que fizera no jogo em casa. Mesmo assim, o Benfica não teve receio de assumir a procura do golo. E foi na obtenção desse primeiro tento que aconteceu, a meu ver, o momento do jogo. Porque a partir daí as estratégias ficaram trocadas. O Lyon sentiu-se desconfortável com o golo sofrido, quis subir no terreno e deu espaços, o que permitiu ao Benfica passar a utilizar o esquema de que tanto gosta e que tinha sido usado pelo adversário enquanto esteve 0-0: boa organização defensiva e transições rápidas, que ainda por cima foram feitas com grande objectividade e eficácia. O segundo golo foi disso um bom exemplo.

3 - O recuperar das bolas paradas

Para além das qualidades já referidas - e não é demais insistir na profundidade e velocidade utilizadas no aproveitamento dos espaços -, o Benfica parece querer recuperar aquele que era um dos seus trunfos da época passada: o aproveitamento das bolas paradas.
A primeira metade foi coroada ainda com o terceiro golo, o que dá uma margem de conforto importante a qualquer equipa. Daí que se perceba a desaceleração da segunda parte. O Benfica procurou gerir, manter a organização e ir deixando o tempo passar, mas sem nunca deixar de ter lances de profundidade, porque um jogador como Coentrão não deixa nunca que um jogo morra. Apesar disso a tendência era para afrouxar.

4 - O mal esteve no 4-0

Como o Lyon continuou a cometer erros, o Benfica fez o 4-0. E aqui vou realçar a intervenção de Maxi Pereira no lance, porque na memória da maioria vai ficar apenas o grande passe de Carlos Martins e a também fantástica finalização de Coentrão, mas antes disso foi preciso ganhar a bola, meter a cabeça onde o adversário tinha o pé. Maxi teve a coragem e deixou para Martins e Coentrão a qualidade e a beleza.
Só que esse bonito quarto golo acabaria por marcar negativamente a partida, porque a seguir a equipa teve uma quebra de concentração que resultou num quarto de hora que manchou aquele que deveria ter sido um grande triunfo, a coroar uma grande exibição. O Benfica não merecia um castigo tão grande, mas depois de estar a vencer por 4-0 a desconcentração é condenável mas… normal. A equipa descomprime, desacelera e basta um golo para moralizar um adversário tão experiente como o Lyon. Serve de lição para o futuro.

5 - Acordar os fantasmas

Esquecendo o quarto de hora final, no plano individual destaco a segurança e a entrega de Luisão, a qualidade de Carlos Martins, que fez quatro assistências para quatro golos, e todo o trabalho e o pulmão de Coentrão, para além dos dois golos que marcou.
Creio que as substituições que se seguiram ao 4-0 - saíram Saviola, Kardec e Carlos Martins - tiveram por objectivo poupar os jogadores para o importante jogo de domingo, com o FC Porto. E creio ter-se tratado de uma decisão acertada. Não foi por causa das alterações que a equipa se desorganizou, mas não se pode facilitar. Apesar de os três pontos nunca terem estado em causa, os três golos sofridos dão uma má imagem e até houve tempo para Roberto acordar os fantasmas.~

6 - Ala esquerda para o Dragão

Depois do jogo de ontem, não creio que a equipa a apresentar por Jorge Jesus no Dragão seja muito diferente. Se Aimar estiver em condições, deverá sair Salvio e Carlos Martins jogar na direita, mas pode abrir-se uma discussão sobre a ala esquerda. Frente ao Lyon, Coentrão e César Peixoto alternaram a posição de lateral com a de médio-ala. Quando subia um ficava o outro e fizeram-no bem, porque ambos têm rotina das duas posições. Como no domingo pela frente vai aparecer Hulk, acredito que Jesus aposte nesta dupla, com Peixoto à frente de Coentrão. Gaitán até pode ser mais criativo, mas dá menos garantias a defender.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Benfica 4 - 3 Lyon - Fase de Grupos Liga dos Campeões 2010/11

Um sonho que se poderia ter tornado um pesadelo. Este ano parece que estamos destinados a isto: sofrer sempre até ao fim e nunca ter uma vitória por garantida. Os últimos 15 minutos do jogo com o Lyon foram inacreditáveis, mas ainda assim uma coisa temos de ressalvar: o Benfica venceu o jogo, cumprindo o único objectivo que se pedia para esta partida. É certo que fica um amargo de boca enorme, pois podíamos ter goleado o Lyon e, acima de tudo, ficado em vantagem sobre os franceses no confronto directo, algo que poderia ser importante para as contas finais do grupo. No entanto, o empate do Schalke em Israel acabou por servir-nos também na perfeição. Na próxima jornada iremos nós a Israel e o Schalke recebe o Lyon, o que já permite fazer várias conjecturas: se o Schalke vencer esse jogo e nós o nosso, estaremos obrigados a ganhar na Luz aos alemães; se esse jogo ficar empatado e nós vencermos o nosso, bastar-nos-á um empate na última jornada para passar, cenário idêntico ao que acontecerá se o Lyon ganhar. Ou seja, o Benfica pode dar um passo de gigante para o apuramento se conseguir a vitória em Israel, sítio onde o Schalke escorregou. E aí veremos se as palavras do nosso treinador no início da prova, onde avisou que quem perdesse pontos com o Schalke ficava de fora, se concretizarão. Agora já só dependemos de nós para seguir em frente na competição.


Desta feita, vimos um Benfica seguríssimo de si e à procura do triunfo desde o início, mas sempre com as necessárias cautelas defensivas - ainda que o Lyon tenha mostrado ser uma equipa quase banal sem Lisandro. Para piorar o cenário inicial, Aimar sentiu-se indisposto e Jorge Jesus apostou na surpresa: Salvio no 11 inicial. E o argentino respondeu de forma muito positiva, mostrando que com tempo para se adaptar e com muito trabalho, poderá vir a ser um elemento importante na equipa. No entanto, o destaque óbvio deste jogo tem de ir para 2 jogadores: Carlos Martins e Fábio Coentrão. O primeiro, porque se redimiu por completo do erro que deu o 1-0 ao Lyon em França. Fez de 10 melhor ainda do que o Aimar costuma fazer e coroou a exibição magistral com 4!!! assistências para golo, duas na sequência de bolas paradas e duas em passes absolutamente magistrais para Coentrão. Já o lateral/médio esquerdo, que caminha a passos largos para vir a discutir nos próximos anos o título de melhor lateral/médio esquerdo do mundo com o galês Bale, do Tottenham, voltou a fazer um jogo do outro mundo, conseguindo fazer o que normalmente não consegue: golos. Até neste aspecto se tem registado uma evolução tremenda em Coentrão desde que começou a ser trabalhado por Jesus, à semelhança do que aconteceu o ano passado com... Di María. Temo sinceramente que esta seja a última época do caxineiro na Luz, pelo que sugiro que todos a apreciem com especial interesse e atenção. Ele merece.


A primeira explosão de alegria aconteceu aos 20 minutos, quando Kardec, de cabeça, desviou da melhor forma um livre superiormente executado por Carlos Martins.
Aos 32, a dupla sensação entrou pela primeira vez em acção, com Coentrão a fazer um grande golo. Lloris ainda tentou defender, mas aquela bola levava selo...


Quando aos 42 Javi García aumenta para 3-0 (num lance com muitas, muitas culpas para LLoris...), a alegria deu lugar ao espanto nas bancadas da Luz. Onde tinha estado este Benfica durante toda a época? Estaríamos perante o Benfica demolidor da temporada passada? Esta equipa era a mesma que havia sido cilindrada em Lyon? Estas eram algumas das perguntas que assolavam a mente dos adeptos, que mais estupefactos ficaram quando Coentrão aumentou para 4-0 aos 67 minutos, num golo de antologia (a forma como coloca o pé à bola para a fazer entrar só está ao alcance dos melhores).


Depois de tudo isto, quem diria que o Lyon seria capaz de criar o quase-cataclismo que se veio a verificar a partir dos 75 minutos? Ninguém, nem mesmo os franceses. Neste aspecto, as culpas recaem todas sobre Jorge Jesus, que noutros jogos da época tem sempre optado por substituições conservadoras e neste jogo resolveu brincar com o fogo, colocando quase ao mesmo tempo Weldon, Jara e Felipe Menezes. O Lyon chegou ao 4-1, por Gourcuff, e começou a acreditar que era possível voltar a ficar em vantagem no confronto directo (por essa altura já só tinha de marcar mais um) e quem sabe tentar algo mais.


O primeiro objectivo veio com o golo de Gomis (cuja entrada revolucionou o futebol do Lyon, que passou finalmente a ter uma referência na área), dez minutos depois. Nesse momento, os franceses, apesar da derrota, garantiam a superioridade sobre o Benfica em caso de empate final nas contas do grupo.


Em cima do apito final, surgiu o impensável 3º golo, naquele que foi o regresso do Roberto dos primeiros jogos. Um frango monumental do espanhol que por pouco não deu em males maiores para os encarnados.

Apesar dos desastrosos 15 minutos finais, a verdade é que o Benfica cumpriu o objectivo principal e voltou a depender apenas de si próprio para assegurar a passagem aos oitavos-de-final. Agora o importante é pensar no campeonato e na deslocação ao Dragão, naquele que será um dos jogos mais importantes do campeonato. Se perdermos, hipotecamos todas as esperanças de revalidar o título (desenganem-se os que acreditam na matemática: o Benfica nunca irá recuperar 10 pontos ao Porto este ano). Se empatarmos, é um bom resultado, na medida em que mantemos a distância pontual, não permitindo que o Porto fuja (e contribuindo para que eles percam 2 pontos, o que aumenta um pouco o interesse do campeonato). Se vencermos, ganhamos novo fôlego para o resto da temporada, além de marcarmos uma posição: afinal de contas, os campeões nacionais ainda somos nós. Porque é possível trazer um resultado positivo do dragão, de modo a manter vivas as esperanças do 33º, vamos lá, Benfica!

Os golos do jogo aqui:



PS: O Benfica conseguiu esta importantíssima vitória no dia em que se comemorava o 125º aniversário do nascimento do grande Cosme Damião, o homem que deu início a este projecto que havia de se tornar tão grande. Um grande bem-haja para ele!


PS2: Ontem fez anos o grande Aimar, um dos maiores talentos que já passou pelo nosso campeonato, e felizmente pelo Benfica. Muitos parabéns também a El Mago!


PS3: No Domingo conquistámos a Supertaça de basquetebol frente ao Porto. Mais uma conquista histórica numa modalidade onde somos reis e senhores há 3 anos. Que a mão quente se continue a manifestar também no campeonato, onde procuraremos o tri. Força, Benfica!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

RAP


Depois de treinador de Bancada, o árbitro de Bancada: Uma Evolução Natural

Confesso que tenho dificuldade em compreender os receios que rodeiam a hipotética greve dos árbitros na semana do Porto – Benfica. Não sei se ainda mantém em rigor a velha regra segundo a qual, na ausência do árbitro, deve ser recrutado um espectador na bancada para arbitrar a partida. Se assim fosse, o mais provável seria que o árbitro do jogo acabasse por ser um adepto do Porto. Sinceramente, creio que ninguém daria pela diferença. Seria um Porto – Benfica perfeitamente normal. Já aqui recordei a noite histórica em que o Sr. Donato Ramos, depois de ter permitido que o Vítor Baía defendesse com as mãos fora da área, anulou um autogolo do Porto por fora-de-jogo posicional de um jogador do Benfica. Hoje, lembro o saudoso árbitro Carlos Calheiros (que é também o eminente turista José Amorim), que um dia assinalou um penalty contra o Benfica por uma razão que permanece misteriosa até agora. Na primeira repetição, José Nicolau de Melo descortinou (e José Nicolau de Melo descortinava como ninguém) uma falta de Mozer. Na segunda repetição, julgo que aventou uma mão de Hélder. E, na terceira repetição, concluiu que não existia falta em nenhuma das infracções anteriores nem em qualquer outra, mas optou por dar o benefício da dúvida ao árbitro. Gente maldosa comentou que o benefício da dúvida tinha sido o menor dos benefícios que o árbitro tinha recebido nessa noite. Acredito mesmo que qualquer adepto do Porto faria um trabalho mais isento.

Quanto à greve, não sei se tem razão de ser, mas não percebo a forma do protesto. Quando os trabalhadores da TAP fazem greve, não comparecem na TAP, que é a morada do patrão. Quando os funcionários da EDP fazem greve, abstêm-se de comparecer na EDP, que é a morada do patrão. Quando os árbitros fazem greve, ameaçam não comparecer no estádio do Dragão? Que esquisito.

Todos estes meses depois, o túnel da Luz continua a afastar o inigualável Givanildo da convocatória da selecção brasileira. Há, perversa infra-estrutura! Perversa e sectária, que o David Luiz passa lá todas as semanas e continua a ser convocado.

“ (…) é assustador verificar a frequência com que, graças a uma redacção voluntariamente ambígua da lei, são anuladas em julgamento as escutas telefónicas.”
MIGUEL SOUSA TAVARES
Expresso, 11 de Junho de 2007

“ Durante quatro semanas a fio, o jornal «Sol» levou a cabo, tranquilamente, a divulgação de escutas telefónicas recolhidas num processo em segredo de justiça e abrangendo até alguma gente que, tanto quanto sabemos, não é suspeita de qualquer crime. (…) E todos nós, mesmo os discordantes, fomos obrigados a ler as escutas e concluir a partir dos factos e indícios nelas contidos, sob pena de sermos excluídos da discussão pública”.
MIGUEL SOUSA TAVARES
Expresso, 25 de Março de 2010

Como já aqui tive ocasião de notar, há um grande consenso social em torno do fenómeno das escutas. Até gente de clubes diferentes se encontra no essencial, o que é notável e bonito. Por exemplo, eu concordo com o Miguel Sousa Tavares quando diz que é assustador o número de escutas telefónicas, algumas bem incriminadoras, que são anuladas em tribunal. E também me sinto obrigado a tomar conhecimento dos factos e indício nelas contidos, para não ser excluído da discussão pública. O que pretende quem deseja fingir que as escutas não existem é decretar a obrigatoriedade da hipocrisia. E isso, fiquem sabendo, Miguel Sousa Tavares nunca permitiria. E eu estou com ele nesta luta. Juntos venceremos, tenho a certeza.

“ Jornalista – O best seller de Carolina assume foros de escândalo. As críticas vêm até indefectíveis portistas.

Rui Moreira – O Sr. Jorge Nuno Pinto da Costa devia ter falado com os adeptos, devia ter falado com os sócios, sobre esta matéria. E devia ter-lhes pedido desculpa
(…)

Jornalista – As críticas aos administradores da SAD não se limitam à gestão.

Rui Moreira – À volta daqueles que são os grandes líderes, aquilo que acontece é que se começa a confundir a fidelidade com o cortesão. Perante o Sr. Jorge Nuno Pinto da Costa são absolutamente acríticas, mas nas costas do Sr. Jorge Nuno Pinto da Costa são as pessoas mais críticas. E esta tendência, que é típica dos cortesãos, como nós sabemos, aquilo a que se chama jogos de corredor, é típica também de uma instituição cuja liderança se aguenta durante muitos anos. (…) Aquele passeio da fama que o FC Porto tem, faltam lá alguns nomes, claramente.

Jornalista – Mas quem é que é o responsável por isso?

Rui Moreira – É a política de guerrilha”.

Numa interessante reportagem da RTP, disponível aqui: http://www.youtube.com/watch?v=5yjllkmd4wg&feature=related.

Tenho acompanhado com muito interesse o Trio D’Ataque na sequência do despedimento com justa causa de Rui Moreira. Por muito que me custe admiti-lo, o comunicado emitido pela SAD do Porto estava correcto: de facto, o novo elemento (além de ter a estanha mania de permanecer no estúdio durante toda a duração do programa, honrando o contrato que o liga à RTP), emite livremente opiniões que são da sua exclusiva responsabilidade. O novo modelo do programa faz lembrar o tempo em que Rui Moreira não era sequer candidato a sócio do ano, antes de ter percebido que as suas opiniões não eram as mais correctas, quer para as suas ambições inconfessadas, quer para a sua saúde. Espero que o estádio do Dragão tenha corredores espaçosos: há mais um jogador para albergar.

P.S. - Tanto Miguel Sousa Tavares (que esta semana nos obsequiou com uma excelente redacção subordinada ao tema A Caça aos Patos) como Rui Moreira (que fornece aos leitores informações interessantíssimas, como o facto de não ter visto um jogo por estar a entreter um Sr. Que até é comendador) insistem que eu não escrevo aqui sobre o que devia. O jurista que cita a declaração de independência pensando estar a citar a constituição americana considera que eu não sei do que falo; o comentador desportivo que foi despedido por não comentar tem reparos a fazer aos meus comentários. Vivemos num mundo estranho.

Por Ricardo Araújo Pereira, 30 de Outubro in jornal A Bola