O 27º Mourinho respondeu ao primeiro, que ficou com as orelhas a arder
Se houvesse dúvidas acerca da categoria de André Villas-Boas, elas dissiparam-se ontem. Trata-se de um treinador de nível internacional. Um técnico menor estaria empenhado a tentar perturbar o treinador do seu adversário de hoje no primeiro troféu da época, ou a tentar desestabilizar o outro candidato ao título, o Braga. André Villas-Boas não. Anda entretido a fazer mind games com o treinador do Real Madrid. Não duvido de que os merengues andem de cabeça perdida por causa das azedas considerações de Villas-Boas. «Villas-Boa es muy duro!», terá exclamado Jorge Valdano. «La Liga ya nos va correr mal!», terá suspirado Florentino Pérez.
A conferência de imprensa que o treinador do Porto deu ontem ficará na história do futebol. Primeiro, disse que concordava com o Special One: Villas-Boas e Mourinho não são clones. Depois, disse que discordava do Special One: Villas-Boas e Mourinho tinham quase o mesmo número de jogos como treinador principal antes de chegar ao Porto. Logo, afinal são clones. É um discurso que só está ao alcance das mentes mais complexas. A imprensa do Porto apressou-se a fazer a pesquisa que servia os argumentos de Villas-Boas e descobriu que, antes de ir para o Porto, Mourinho tinha apenas mais um jogo como treinador principal do que Villas-Boas. O problema é que Mourinho não falou em jogos como treinador principal. Falou em trabalho de campo. Antes de ser treinador principal. Mourinho foi treinador adjunto. Não foi observador de jogos, nem redactor de relatórios. Dizem que faz uma diferençazinha.
Como benfiquista, não posso deixar de estar preocupado com o jogo de hoje. Alem de ser orientado por um quase Mourinho, o Porto conta agora com João Moutinho, que no espaço de duas semanas deixou de ser um fiteiro contumaz para, segundo Rui Moreira, passar a ser um quase-Iniesta, e o Benfica limitou-se a fazer uma pré-temporada parecida com a da época anterior, o que significa que, tal como no ano passado, estamos todos imbuídos de um entusiasmo completamente injustificado. É certo que Miguel Sousa Tavares atribuiu o favoritismo da Supertaça ao Benfica, mas, depois de ter previsto a vitória da Argentina no Mundial, MST evidenciou perceber menos de futebol do que certos polvos alemães. Não há nada que nos acalme esta angústia.
Creio que o leitor se lembra da novela. Primeiro, Real Madrid e Barcelona digladiaram-se pelo jogador. Os catalães ofereciam milhões mais o Ibrahimovic e os madrilenos queriam troca por troca com o Kaká. Depois, Chelsea e Manchester United travaram uma luta muito feia para o contratar, com derramamento de sangue e tudo. Foi, por isso, com bastante admiração que vi o extraordinariamente magnífico Bruno Alves rumar a S. Petersburgo. Enfim, estes jogadores que têm o Porto no coração e que Pinto da Costa diz que vão ficar muito tempo só abandonam o clube se for para rumar a algum colosso do futebol europeu.
Quanto ao Sporting, a grande surpresa foi a ida de Miguel Veloso para o Génova. Que se terá passado? O Porto não estava interessado no jogador? É possível que Veloso fosse apenas uma maçã tocada, ao contrário de João Moutinho, que como se sabe já estava em estado de putrefacção. A ponto de certos adeptos do Sporting terem mesmo negado que Moutinho fosse um símbolo do Sporting. Absurdo. Recordo que Moutinho era capitão e tinha na camisola o número 28. Exactamente o número de pontos a que o Sporting ficou do Benfica. Se isto não é um símbolo, não sei o que é.
Ricardo Araújo Pereira, 7 de Agosto in Jornal A Bola
Só hoje escrevo sobre o jogo de sábado porque não consegui fazê-lo antes mas também pela enorme azia com que fiquei com a derrota, o que me fez ficar sem vontade nenhuma de voltar a falar sobre o jogo. Esta era uma partida que para mim era essencial ser ganha pelo Benfica, disse-o aqui várias vezes, bem como em comentários noutros blogs. Essencial para diminuir a hegemonia portista na competição e, acima de tudo, para ganhar um ânimo redobrado para o resto da temporada, impedindo assim o Porto de conseguir esse mesmo ânimo. No entanto, o Benfica não foi capaz de puxar dos galões de campeão e acabou por ser ultrapassado claramente pelo 3º classificado da temporada passada, que parecia não ser capaz de competir com as mesmas armas do campeão nacional para esta época. A minha desilusão foi enorme.
E, como muitas vezes afirmei aqui noutras ocasiões em que não fomos capazes de ser superiores aos nossos adversários, a culpa desta derrota foi toda de Jorge Jesus. Depois de uma pré-época a ser disputada na sua maioria em 4-3-3, o nosso treinador resolveu mostrar medo do Porto e mudar o esquema para o 4-4-2 da época passada. O problema é que faltavam 2 elementos importantíssimos da época passada e desse esquema (Ramires e Di María), que ainda não têm substitutos definidos (supostamente estarão para chegar). Por essa razão, JJ apostou em César Peixoto para a titularidade, adiantando Fábio Coentrão para médio interior esquerdo. Novo erro. Coentrão está a ser utilizado como lateral há quase uma época e não é num jogo com esta importância que faz sentido recolocá-lo a extremo/médio-interior. Teria sido muito mais profícuo jogar o Peixoto nessa posição, indo à linha ou descaindo mais para o meio, deixando todo o flanco à guarda de Coentrão, hoje um dos melhores laterais do Mundo. Aliás, nas laterais esteve outro dos grandes problemas deste Benfica: o Ruben Amorim fez uma pré-época muito fraquinha e não é nem pode ser a 2ª opção para lateral-direito. Se o outro lateral que temos (Luís Filipe) não serve, então que se canalizem uns milhões também para reforçar essa posição. De qualquer forma, não consigo perceber como é que o Álvaro Pereira ficou pronto a tempo de jogar e o Maxi não. Há coisas que me ultrapassam, sinceramente. Todos estes erros do nosso treinador redundaram naquilo que pudemos ver: um Porto totalmente dominador, com uma postura à campeão, e um Benfica completamente aburguesado, sem vontade de ganhar a competição, lutando muito pouco para contrariar o ímpeto inicial dos dragões. O golo de Rolando é absolutamente imperdoável: como é que aos 3 minutos de uma competição deste nível é possível deixar um adversário sozinho na entrada da pequena área? O que é que o David Luiz estava a fazer? Roberto podia ter feito melhor, mas a cabeçada foi à queima-roupa e a verdadeira culpa foi da deficiente marcação feita ao central do Porto, que obviamente não desperdiçou a oportunidade.
O Porto continuou a comandar durante mais 25 minutos, perante um Benfica apático, sem soluções e, pior que tudo, sem grande ambição para conquistar o troféu (e isso é que foi o mais preocupante deste jogo). A partir dos 30 minutos, os encarnados equilibraram o jogo e passaram mesmo a dominar, acabando a 1ª parte por cima. Ainda assim, o golo não apareceu, o que deixou os portistas muito mais tranquilos para a 2ª parte. O Benfica continuou a procurar o empate, mas sempre sem ideias, cenário que se manteve mesmo após a entrada de Jara. Sem grandes surpresas, o Porto acabaria por chegar ao 2º, por intermédio do melhor avançado a jogar em Portugal: Falcao. O colombiano, apesar de não ser um ponta-de-lança clássico, é mortífero nas zonas de finalização, item em que, por exemplo, Saviola falhou em toda a linha aos 85 minutos, quando permitiu a defesa a Helton. De destacar ainda o nó que Varela (o melhor em campo) deu em Luisão antes de assistir Falcao. Se o central brasileiro ainda não estava na melhor condição física, então que tivesse ficado de fora, ou a confiança em Sidnei é assim tão pouca? É que se é, espero que vendam o rapaz o mais depressa possível: se nem para actuar no lugar de um colega em deficiente condição física ele é utilizado, então mais vale mandá-lo à sua vida e encaixar uns milhões com a transferência. Uma nota para a excessiva dureza dos jogadores do Benfica: pareciam, sinceramente, o Bruno Alves e o Raul Meireles na final da Taça da Liga. Isto não é o Benfica, aquelas entradas não são próprias de jogadores do Benfica. Tal como nesse jogo o Bruno Alves e o Meireles teriam de ter sido expulsos ainda antes do intervalo, também neste jogo o Carlos Martins, pela sucessão de faltas, o César Peixoto, por 2 entradas duríssimas, e o David Luiz, pela alarvidade que fez ao rasteirar um jogador do Porto com o jogo parado, podiam perfeitamente ter sido expulsos (tal como o Álvaro Pereira quando se atira para cima do árbitro). Este não é o meu Benfica.
E assim se foi mais uma Supertaça para o Porto. O Benfica continua a baquear nos encontros frente ao Porto, algo que me ultrapassa e que não consigo perceber minimamente porque acontece. O Porto, quando joga connosco, transcende-se, enche-se de brio e de garra e joga com tudo para ganhar (não aconteceu o ano passado na final da Taça da Liga, mas viu-se bem no Dragão). O Benfica, pelo contrário, encolhe-se, mostra medo e entra em campo totalmente desconcentrado. Isto é imperdoável em alta competição e costuma pagar-se caro, tal como aconteceu no Sábado. Fiquei muito desanimado depois dessa derrota, porque era uma competição que queria mesmo vencer, e só espero que a equipa consiga ultrapassar este duro revés e embale para o bi-campeonato (e, já agora, que não descure as outras competições: as 2 taças nacionais e a Liga dos Campeões, claro). Vamos lá para o 33º!
Com o primeiro troféu oficial à porta, inauguro hoje a rubrica "O Benfica na Supertaça", que vem na sequência das já existentes "O Benfica na Taça de Portugal", "O Benfica na Taça da Liga" e "O Benfica na Europa", uma competição que é a única nacional em que o Benfica não é a força dominadora (tem apenas 4 triunfos, contra 16 do Porto e 7 do Sporting). A final da Supertaça que irá aqui ser relembrada é precisamente a única que conseguimos vencer ao Porto (contra as 9!!! que perdemos com a mesma equipa), nas 4 que já conquistámos (as outras foram frente a Sporting, Belenenses e Vitória de Setúbal). Em 1985/86, com John Mortimore ao leme da equipa, o Benfica começou e terminou a época a vencer: conquistou a Supertaça referente ao ano anterior (em que havia vencido a Taça de Portugal) e a Taça do mesmo ano. Só falhou o campeonato, que foi pelo 2º ano consecutivo para o Porto. Esta era a 7ª Supertaça que se disputava (a competição iniciou-se apenas em 79/80), tendo já sido vencida por Boavista, Benfica e Sporting (todos uma vez) e 3 pelo Porto. Era, por isso, muito importante conquistá-la, assim como o será amanhã, não só por ser um troféu oficial como também (e mais importante que tudo) por ser uma competição onde o Benfica perde claramente para os rivais mais directos. Acrescente-se a isto o factor motivação: se o Benfica vencer o Porto neste encontro, ganha uma motivação extra para revalidar o título nacional, conseguindo assim um bi-campeonato que já não acontece há 26 anos, e coloca uma pressão insuportável sobre a equipa nortenha e o seu novo treinador; se, por outro lado, o Porto conseguir o triunfo, a tal motivação vai toda para o Norte. Por estas razões, conseguir esta vitória é essencial para uma época de sucesso. Espero que a nossa equipa se inspire nesta vitória, conseguida por muitos dos mais importantes jogadores de sempre do Glorioso.
Nesta altura, a Supertaça ainda era disputada a duas mãos, cada uma na casa de um dos clubes. Neste ano, a 1ª mão foi jogada na Luz. Pelo Benfica actuaram Bento; Veloso, António Bastos Lopes, Oliveira e Álvaro Magalhães; Diamantino, Nunes, Shéu e Wando; Manniche e Nené, mais os suplentes utilizados Rui Pedro e Pietra. Num jogo muito disputado, um golo solitário de Diamantino garantiu a vitória à equipa encarnada. Já só era preciso manter a vantagem na 2ª mão.
E foi exactamente isso que aconteceu. Nas Antas, o Benfica (com apenas duas alterações no 11: Samuel no lugar de Bastos Lopes, que entrou no decorrer do jogo, tal como César Brito, e Carlos Manuel no lugar de Nunes) sofreu uma grande pressão, mas acabou por conseguir aguentar o empate a zero e levantou a Supertaça Cândido de Oliveira 85/86.
O resumo do jogo da 2ª mão (infelizmente não consegui encontrar o da 1ª) aqui:
Com esta alma, com esta garra e com as qualidades pessoais que o Ramires sempre demonstrou. Para mim, foi um prazer vê-lo com a nossa camisola, mesmo que tenha sido apenas por um ano.
"Espero que todos compreendam esta decisão. É assim o futebol. Este desfecho é bom para o clube e para mim. Adoro o Benfica, adoro este clube. Levo o Benfica no coração, levo a sua torcida no coração, claro! Estou muito feliz. Jamais esquecerei o quanto ganhei aqui, onde fui campeão, onde me projectei e fui muito feliz. Foi um ano maravilhoso! Com os adeptos que tem, o Benfica só pode ser grande. E confio que vai continuar a ganhar títulos sem mim: ficarei a torcer por isso. Foi em Lisboa que tive a felicidade de ser pai pela primeira vez. Só acaba por ser curta a minha passagem pelo clube. Estou grato a todos pelo carinho. Mas espero que todos entendam que era uma oportunidade muito boa para mim a nível pessoal, desportivo e financeiro. E jamais ficaria triste se ficasse ou ainda vier a continuar no Benfica, que me deu tudo"
O pai do nosso capitão morreu ontem, pelo que aqui ficam as minhas condolências a Nuno Gomes e a toda a sua família. Espero que isto ainda te dê mais forças para querer ganhar tudo em memória do teu pai. Força, capitão!
No seguimento do meu post anterior, vejam o que Mourinho diz sobre o Cristiano Ronaldo (que é, curiosamente, o mesmo que todos os treinadores que já trabalharam com ele dizem). Queira-se ou não, Ronaldo é um grande profissional, não tenho dúvidas nenhumas disso.
Por outro lado, o Special One (sim, porque Il Speciale e El Especial são apenas traduções; a imagem de marca há-de ser sempre Special One), demonstrando mais uma vez a clarividência e a sabedoria próprias do melhor treinador do Mundo, afirma que o Benfica poderá ser, com muita naturalidade, bi ou até tri-campeão e que este ano irá lutar pela Liga dos Campeões. Com Mourinho a falar assim, nem quero imaginar como estarão algumas pessoas por esse país fora...
Ninguém me paga para defender o Cristiano Ronaldo, nem ele faz a mínima ideia da minha existência, mas a verdade é que as pessoas falam muito do que não sabem e gostam muito de criticar os outros, muitas vezes sem saberem nada da vida das pessoas. Esta peça, embora com algumas incoerências e nem sempre bem escrita, talvez possa ajudar as pessoas a perceber certas atitudes e comportamentos de uma pessoa que já passou por muito na vida. Eu vi a reportagem do Daniel Oliveira, no programa "Os Incríveis" antes do Euro'2008, na casa do Cristiano Ronaldo e confesso que gostei muito do que vi. Quem não gosta dele, lá terá as suas razões. Eu, pelo contrário, admiro-o pela forma como conseguiu vingar na vida, mesmo com tudo a cair-lhe em cima desde o início.